
Por vezes, há símbolos que resumem uma mudança de época. Visitar Stellantis, Este símbolo poderá ser o futuro SUV elétrico da Opel, previsto para 2028. Ao mesmo tempo que o grupo corta 650 postos de trabalho de engenharia nas suas instalações históricas de Rüsselsheim, na Alemanha, confirmou que uma parte essencial do desenvolvimento do próximo modelo Opel será efectuada... na China.
Esta decisão ilustra perfeitamente a nova estratégia industrial adoptada pelo grupo liderado por Antonio Filosa: menos engenharia local em certas áreas de negócio, mais cooperação global e, sobretudo, uma utilização assertiva das tecnologias chinesas, sempre que tal nos permita avançar mais rapidamente e reduzir os custos.
Rüsselsheim reduz os seus efectivos
Há apenas um mês, a Stellantis anunciou oficialmente uma redução significativa da sua os seus efectivos de engenharia na Alemanha. O centro técnico de Rüsselsheim, o berço histórico da Opel, vai perder 650 engenheiros, reduzindo o número de efectivos de cerca de 1.650 para 1.000.

Na altura, a Stellantis explicou que pretendia transformar este local emblemático num centro mais especializado, recentrando-se em áreas consideradas estratégicas, como os auxiliares de condução, a inteligência artificial, o software e as futuras arquitecturas electrónicas do Grupo.
Na altura, a linha oficial era «transformação» e não retirada. A Opel e a Stellantis prometeram que Rüsselsheim manteria um papel central no desenvolvimento dos futuros veículos do fabricante alemão. Mas os anúncios feitos hoje na Alemanha lançam muito mais luz sobre o que esta reorganização realmente significa.
O próximo SUV da Opel será desenvolvido em grande parte na China
Falando em Rüsselsheim, o chefe da Opel, Florian Huettl, confirmou o que até há pouco tempo parecia ser uma hipótese: o futuro SUV elétrico do segmento C da Opel, previsto para o verão de 2028, será desenvolvido em estreita colaboração com o fabricante chinês Leapmotor.

E esta cooperação não se limitará a alguns componentes secundários. De acordo com as declarações do CEO alemão, elementos essenciais do veículo serão desenvolvidos diretamente na China. Estes incluem o motor elétrico e a bateria, bem como toda a arquitetura eléctrica e digital do futuro SUV. Em suma, o coração da tecnologia do veículo será chinês.
Rüsselsheim não está a desaparecer completamente do projeto, longe disso. Os engenheiros alemães manterão algumas responsabilidades chave, incluindo a afinação do chassis, a direção, os bancos e as tecnologias de iluminação - áreas em que a Opel ainda reivindica uma experiência histórica. Por outras palavras, o próximo SUV da Opel será, de facto, parcialmente «concebido» na Alemanha, mas com uma base tecnológica que virá, em grande parte, da China.
«Em menos de dois anos»
Talvez o aspeto mais revelador desta nova abordagem seja o calendário. O próprio Florian Huettl explicou que esta parceria com a Leapmotor deverá permitir o desenvolvimento do veículo «em menos de dois anos». Trata-se de uma velocidade quase sem precedentes na indústria automóvel europeia, onde um novo modelo demora geralmente entre três e quatro anos a ser desenvolvido.
Porquê ir tão depressa? A resposta é simples: o Stellantis pretende acelerar a sua ofensiva eléctrica, mantendo os custos sob controlo. Há vários meses que o grupo reconhece implicitamente que está atrasado em relação aos construtores chineses em certos domínios tecnológicos, nomeadamente nas plataformas eléctricas e no software de bordo. O Leapmotor parece ser agora um atalho industrial que lhe permitirá recuperar rapidamente soluções já experimentadas e testadas, menos dispendiosas e mais competitivas.
Já não se trata apenas de uma parceria oportunista. Com uma participação de 21 % na Leapmotor e uma joint venture internacional de 51 % detida pela Stellantis, o fabricante chinês tornou-se um pilar da estratégia do Grupo.
Na Alemanha, a notícia não está a ser muito bem recebida. É difícil não ver uma ligação entre a redução de efectivos em Rüsselsheim e esta transferência parcial de competências para a China. Algumas semanas depois de ter anunciado a redução de 650 postos de trabalho para engenheiros, Stellantis explica agora que secções inteiras do desenvolvimento do próximo Opel serão realizadas a vários milhares de quilómetros da sede histórica da marca.
A mensagem enviada às equipas alemãs é inevitavelmente delicada: enquanto alguns engenheiros abandonam a empresa, os futuros Opel dependerão mais das tecnologias concebidas fora da Europa. Stellantis está obviamente a tentar apresentar esta evolução como uma «distribuição inteligente de competências» à escala mundial. Os engenheiros alemães conservariam os elementos ligados ao ADN da Opel (aderência à estrada, conforto, qualidade percebida), enquanto a China forneceria os elementos tecnológicos que permitiriam à empresa manter-se competitiva. Mas o simbolismo continua a ser forte.
Opel, pioneira de uma revolução silenciosa em Stellantis?
Este projeto pode também ser apenas o início. O futuro SUV da Opel não será apenas desenvolvido com o Leapmotor: será também produzido na fábrica Stellantis em Saragoça, Espanha, onde o Leapmotor B10 também deverá ser montado. Este local histórico da Opel irá, por conseguinte, fabricar um modelo chinês e um Opel SUV baseado em tecnologia chinesa.

Na Stellantis, a Opel parece estar agora a desempenhar um papel de laboratório. Florian Huettl refere mesmo um papel «pioneiro» da marca alemã nesta nova cooperação com a Leapmotor. E seria surpreendente se esta lógica se ficasse pela Opel. Se o modelo se revelar eficaz, ou seja, mais rápido de desenvolver, mais barato de produzir e suficientemente competitivo face aos rivais chineses, é seguro apostar que outras marcas do Grupo seguirão o exemplo.