
A crise social que abala a fábrica Stellantis em Tychy, na Polónia, atingiu um novo ponto de viragem. Após várias semanas de tensão, ameaças legais e negociações particularmente tensas, foi finalmente alcançado um acordo entre a direção do grupo e os sindicatos. Por detrás deste compromisso, porém, esconde-se uma realidade mais preocupante: A Stellantis já está a prever uma queda na procura para 2026, incluindo para os modelos considerados estratégicos.
Da ameaça legal ao acordo
Até há alguns dias, o clima social em Tychy parecia estar prestes a entrar em rutura. O sindicato Solidarnosc acusava o Stellantis de ter rompido o diálogo social e ameaçava claramente o grupo. uma ação colectiva nos tribunais. A decisão, anunciada em meados de janeiro, é suscetível de afetar até 740 postos de trabalho, incluindo contratos temporários e a termo certo. Na altura, os representantes dos trabalhadores denunciaram o que consideravam ser compromissos enganadores e condições de despedimento consideradas inadequadas em comparação com as outras instalações europeias do Grupo. Na altura, Grzegorz Maslanka, presidente do Solidarnosc em Tychy, afirmou: "Sentimo-nos enganados", sublinhando a perda de confiança entre os trabalhadores e a direção.
Finalmente alcançado um compromisso para 320 trabalhadores com contratos permanentes
Após mais de duas semanas de negociações intensas, marcadas por dez sessões particularmente difíceis, foi finalmente assinado um acordo no início de fevereiro. O acordo diz respeito a 320 trabalhadores com contratos permanentes, dos 740 postos de trabalho inicialmente visados pela redução de atividade. Os sindicatos declaram-se satisfeitos com as concessões obtidas, que consideram muito mais favoráveis do que as propostas iniciais do Stellantis. O ponto central do acordo é o carácter exclusivamente voluntário das saídas, uma forte exigência do Solidarnosc, bem como a introdução de mecanismos de proteção para os trabalhadores mais vulneráveis. Uma comissão paritária, que reunirá representantes sindicais e da direção, será encarregada de examinar as situações sensíveis, nomeadamente as das famílias monoparentais ou dos casais que trabalham no local.
Benefícios melhorados
Um dos principais pontos de discórdia era o montante das indemnizações por despedimento. Também neste caso, o acordo marca uma clara mudança. As indemnizações propostas excedem os mínimos legais e podem atingir 24 meses de salário para os trabalhadores com mais antiguidade, ou seja, o equivalente a dois anos de salário. Os trabalhadores com 4 a 8 anos de antiguidade terão direito a oito meses de salário, enquanto os perfis intermédios receberão 16 meses de salário. Para o Solidarnosc, o resultado final "não é certamente o acordo de sonho", mas representa um compromisso considerado aceitável, quando, alguns dias antes, parecia ainda fora de alcance. O sindicato sublinha igualmente o papel desempenhado pelas estruturas regionais e pelo conselho de empresa europeu Stellantis na obtenção do acordo.
Uma reorganização justificada por um mercado já em retração
Para além dos aspectos sociais, o caso de Tychy revela sobretudo uma leitura muito cautelosa do futuro por parte do Stellantis. A direção do sítio justificou a perda do terceiro posto com o abrandamento do mercado automóvel europeu e com o que considera ser uma atitude mais expetante por parte dos clientes. Mais importante ainda, estima-se que a procura para 2026 já esteja a diminuir. Um sinal forte, dado que a fábrica de Tychy monta modelos-chave para o grupo, como o Alfa Romeo Junior, o Fiat 600 e o Jeep Avenger. Espera-se que estes veículos constituam o núcleo dos volumes da Stellantis no segmento dos SUV compactos electrificados. O facto de a sua produção ter sido reduzida antes de 2026 mostra até que ponto o Grupo está a antecipar uma recessão a longo prazo no ambiente comercial.