
A poucos dias do teste final no Bahrain e a duas semanas do Grande Prémio da Austrália, a maior controvérsia técnica do inverno deu uma reviravolta. Após semanas de suspeitas, cartas oficiais e tensões políticas, a FIA terá finalmente aprovado a solução de motor da Mercedes. Mas longe de apagar o fogo, esta decisão reacendeu o debate... e colocou a Ferrari na linha da frente.
Mercedes passa no teste do calor
De acordo com as informações que circulam agora abertamente no paddock, a FIA deslocou-se a Brixworth, sede da Mercedes AMG High Performance Powertrains, para efetuar um teste sem precedentes: medir a taxa de compressão do híbrido V6 de 2026 em condições ditas “quentes”.
O motor M17 E Performance foi aquecido a 115°C antes de ser desmontado e medido a cerca de 95°C. O veredito: a taxa de compressão mantém-se dentro do limite regulamentar de 16:1. Por outras palavras, a solução técnica controversa é legal.
Esta validação tem consequências de grande alcance, uma vez que quatro equipas - Mercedes, McLaren, Williams e Alpine - utilizarão este motor. Se a sua vantagem em termos de desempenho se confirmar em pista, o próprio equilíbrio da nova era 2026 poderá ser abalado.
A famosa micro-câmara
O cerne da polémica é agora bem conhecido. A Mercedes terá construído uma micro-câmara de cerca de 2 cm³ na cabeça de cada cilindro. Quando está frio, esta cavidade enche-se e permite que o motor respeite perfeitamente o limite de compressão. Mas quando o motor atinge a temperatura, a pressão interna fecha a pequena conduta que liga esta câmara ao cilindro, alterando o volume real de combustão e, por conseguinte, a compressão efectiva.
A Ferrari, a Honda, a Audi e a Red Bull consideram que o motor deixou de estar em conformidade com a regra que exige o cumprimento “em qualquer altura durante a prova”. A Mercedes, por outro lado, defende uma interpretação que respeita estritamente o texto. A FIA, por seu lado, não falou de batota. Falou de interpretação.
Validação... mas nem todos estão convencidos
Mesmo depois de validado, o teste levanta novas questões. Será que a temperatura utilizada corresponde realmente às condições em pista de um F1 ? Nada é menos certo. Vários fabricantes de motores acreditam que a pressão e a temperatura durante a corrida são mais elevadas, o que poderia alterar o comportamento da famosa micro-câmara.
O assunto será discutido na reunião da Comissão de F1 e do Comité Consultivo da Unidade de Potência no Bahrain. Já está a circular um compromisso: instalar um sensor para medir a taxa de compressão em tempo real, ou mesmo dar à Mercedes seis Grandes Prémios para adaptar a sua cabeça de cilindro, se necessário. Por outras palavras, a solução foi validada... mas o dossier está longe de estar encerrado.
Frédéric Vasseur empata mas pede esclarecimentos
Do lado da Ferrari, o tom é comedido. Numa entrevista ao Auto Hebdo, Frédéric Vasseur recusa-se a fazer acusações diretas.
“Acredito na boa fé da Mercedes. Cada um tem a sua própria leitura dos regulamentos e defende o seu próprio projeto.”
Mas o chefe da Scuderia insiste que a Fórmula 1 não pode começar a época com várias interpretações técnicas.
“Se chegarmos à primeira corrida com leituras diferentes dos regulamentos, é natural que haja diferenças de desempenho. E isso não é bom para o desporto”.”
A Ferrari não está a planear qualquer protesto na Austrália, mas exige uma rápida clarificação. Vasseur também salienta que é mais simples reduzir uma taxa de compressão do que aumentá-la. Uma forma subtil de dizer que uma correção tardia ainda seria aceitável.
A FIA quer evitar uma guerra jurídica
Na realidade, todos partilham o mesmo objetivo: impedir que a época de 2026 comece nos tribunais. A Liberty Media teme uma nova era dominada pelos recursos e não pela pista. A FIA procura, portanto, um equilíbrio delicado: validar a inovação sem sugerir a existência de uma vantagem estrutural. Uma diretiva técnica, um sensor obrigatório ou uma tolerância temporária poderiam servir como uma solução política e técnica.
A decisão que sair do Bahrein pode muito bem definir a história do campeonato antes mesmo da primeira largada. Porque hoje, uma coisa é certa: a Mercedes ganhou a primeira batalha regulamentar de 2026. Resta saber se já ganhou a época.